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CancaodaFloresta

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Dissonância

O que é tão dissonante
do que o rio na contra-mão?
Um rio que toma o asfalto,
ou o asfalto que asfasta com a mão?

Rio que corre na beira,
faz germinar o chão?
asfalto que resseca a ribeira,
não deixa nascer nem um grão?

Dissonância inocente,
moleque que pula em ribeirão,
rio que molha a gente,
vai pro céu e volta então.

Asfalto é enchente,
calor e moderna opressão,
no vai e vem dessa gente,
na desenvolvida ilusão...

Thiago Azevedo
Marituba, 15 de dezembro de 2011

As cidades cada vez mais tomam conta do espaço que dantes eram das florestas, dos rios e mares. Isso, por mais que tentem negar, tem gerado impacto direto na vida das pessoas, pois a água das chuvas que antes tinham pra onde ir, não tem mais, as cidades com pouca estrutura, acabam sofrendo as catástrofes naturais de um planeta que geme, com "gemidos inexprimíveis" o anseio que se tornar aquilo que fora um dia, um lugar para todos...

Creio que Deus tem deixado a terra se vingar daqueles que a massacraram quando deveriam cuidar e cultivar...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dicotomias do mercado

Andando pelas ruas
sem saber chegar
andarilho sem rumo
sem teto, nem lar.

Abrigo do mercado
com vista pro rio
o barco vai ancorar
a vida por um fio.

Sem cama ou conforto
leito é calçada
comida é sem gosto
a vida é fachada
erro de aborto.

---------------------------

Esperança, não tenho sinhô
só um punhado de farinha
com um resto de peixe sujo
nesta tigela de manteiga

Amanhã, não sei não sinhô
pode ser aqui? Pode não
meu teto é de estrela
a colcha é feito de brisa

bença, não tenho não sinhô.
nenhuma mão pra mim beijá
nenhuma boca para me beijá
nenhuma voz pra me bençoá.

Té manhã, sinhô
sei que não vai voltá
mas pelo menos um trocado
deixe pra eu pode comprá
mais um punhado de farinha
um peixe velho
um pouco de esperança
um pouco mais de estrelas
um pouco mais de brisa
quem sabe uma bençá
que me dê alegria
e me livre pela manhã
desta horrível caristia...

Thiago Azevedo
Marituba, 14 de outubro de 2010

Esse poema foi duro de escrever, queria falar da vida no Ver-o-peso, mas não conseguia visualizar a manhã raiando sobre o mercado, a vida dos pescadores e o rio coroando a bela paisagem do lugar, como a poesia por sua natureza luta contra os desejos do poeta, tornando-se algo além do próprio autor, acabei vislumbrando a noite, sua dicotomia com o movimento diurno, crianças andando, cheirando, com fome, se prostituindo, vivendo como ratos em bueiros, pedindo alento e carinho.

Seus olhos, já sem o brilho da infância e da esperança que deve haver sempre nos corações inocentes. Me vi responsável por isso e me vi entristecido em ter que pintar tão duro quadro, porém, o que se pode fazer quando a alma transpira essa necessidade...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Reflexo do mundo

Ser reflexo do seu mundo,
é a forma que o poeta tem
para expressar sua palavra.
Que mundo tenho hoje?
que tempo tenho agora?
Antes contemplava o verde
da tão intensa floresta,
os imensos jardins
com seu colorido perfumado.
Agora me contento
com uma folha voando pelo ar,
uma flor que cresce
resistente no asfalto,
a fumaça que embaça o sol
como turvo pôr-do-sol
e este perfume exalado
pelas lojas de vidro
simulando a última flor
envolvida no laço,
que laça a alma perdida
em tempo que não é mais.

Ser reflexo do mundo,
que mundo?
que tempo?
que vida?
e agora?

Poesia,
um reflexo
de um mundo sem nexo...

Thiago Azevedo
Marituba, 07 de outubro de 2011

Estudando um pouco sobre poesia, cada poeta tem uma relação intrísica com seu tempo, seu mundo e momento. Isso me assaltou um tempo, parei e fiquei meditando sobre que tipo de poeta, ou projeto de poeta sou? Que tempo e mundo eu tenho para falar? Me vi aflito, por ao certo não saber, por estar mergulhado numa rede de dúvidas ao olhar para a história do presente e ver um mundo definhando dentro de si mesmo.

Numa palestra que o professor Manoel Moraes fez, percebi que as pessoas não sabem mais o que fazer da própria vida, parece que todos perderam o nexo. 

Como diz o Chico, assim como os cegos, os poetas podem ver na escuridão, ou pelo menos ver a escuridão em que estão todos, porque muitos ainda nem se imaginam estar envolvidos nesta imensa crosta densa que cega os olhos e os sentidos, esse tempo se assemelha ao que diz o poeta que escreveu:
"O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz." Bíblia Sagrada

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Desvairiedade

Unidade de
uma multidão de
unidades de
um todo de
um por todos de
uns todos por nenhuma
umidade na unidade das
partes de partes de
metades de
um todo
reflexo
concreto
complexo
objeto de
um de
todo
metade de
um
todo unidade
pai,
filho e
espírito santo
trindade da
deidade
amém!

Thiago Azevedo
Belém, 26 de abril de 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ironia

João queria ser rico,
Carlos trabalhava muito,
José morava no garimpo,
todos sonhavam juntos.

João nada fazia,
apenas sonhava e queria,
ficava sentado na esquina,
de proseio sobre a dura vida.

Carlos não conseguia,
labutava, mas em carestia,
dia após dia seguia,
vivia e não desistia.

José, nem estudo tinha,
sonhava com ouro da mina,
mas só a pelada serra tinha,
buscava ouro, nada vinha.

João não teve o que queria,
Carlos vive do fundo de garantia,
José é escravo sem alforria
e os três morreram à revelia...

Thiago Azevedo
Belém, 15 de janeiro de 2011

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Lamento de Maria, a doméstica

Desde muito, muito tempo
antes mesmo desta cantoria
os noticiário anuncia
os robo que segue em frente
dos safado que ficam
impune e sempre mente.

Os jornar grita e estampa
mais uma triste notícia
pai que mata mãe
mãe que mata filha
filha que mata toda família
tem arguma coisa errada
argo que não divia.

Gente boa e honesta
pai e mãe de família
morrendo todo dia
nas mão dos safado
pro causo da violência
corrupção e descaso
que faz desta lida, rotina.

Minha esperança é mindinha
não credito em mais ninguém
nem mesmo na minha vizinha
tenho medo de tudo
de sair bem ali na esquina
até de fazer comida
no fogão da minha cozinha.

Me roubam todo dia
a carteira vive vazia
o dinheiro do ônibus
é do ladrão de galinha
meu sofrido salário
nas mão do safado
que governa o estado.

Nem a fé escapulia
tem quem diga qui é pra Deus
mas é só pro padre ou pastor
poder safar o seu
fico com cara de otária
creditando que é pela fé
fé que na verdade me fudeu.

Me roubaram tudo
que tinha na vida
minha casa, caiu
meu dinheiro, sumiu
meu marido, fugiu
minha fé, faliu
e nesta terra de má fé
até Deus anda nu e a pé.

Thiago Azevedo
Belém, 21 de outubro de 2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Pé de Fé, Fé de Pé...

Pé de pé
Pé de moleque
Fruta pé.

Pé de bola
Chulé no pé
Pé de unha
Encravado pé
Pé de chão.

Chão de pé
Pé e mão
Pé de pé, de pé.

Caminha pé
Pé de fé
Qualquer fé
Fé de pé
Fé de fé, de fé.

Fé de fé
Fé de moleque
Enfezada fé.

Fé de fruta.
Chulé da fé
Fé de chão
Fé de irmão
Fé de fé, de fé.

Fé de pé
Mão de fé
Pé de mão
Pé de pé, de pé.

Thiago Azevedo
Belém, 13 de outubro de 2010

domingo, 27 de junho de 2010

Lágrimas...

Minha lágrima tem a cor do barro
deixado pelo caminho,
deixando em silêncio
o sofrimento de muitos pequenos,
dos calados em meio ao entulho,
muitos que nunca mais acordarão.

Minha lágrima tem a cor do negrume
que suja minha alma,
diante do sofrimento humano,
diante do esquecimento humano,
diante deste amor que endureceu.

Minha lágrima tem o sabor amargo
das esperanças que minguam
ante a violência diária das casas e ruas
que o homem é capaz de prover,
contra a terra que deveria servir e cultivar,
contra o próximo a quem deveria amar.

Minha lágrima tem a cor do sangue
dos mortos deixados pelas ruas,
daqueles que ainda hão de morrer
nas mãos do descaso de todos,
por causa da vergonha
dos que não se desnudam do egoísmo.

Minha lágrima tem o sabor amargo da derrota,
daqueles que nunca experimentaram a vitória,
nem ao menos a almejam
por não haver quem lhes dê
o sentimento de ser um vitorioso
ante a todos os fracassos do caminho.

Minha lágrima tem o cheiro do petróleo,
tem o sofrimento dos animais sujos,
tem a dor daqueles que tentam respirar em vão,
tentam achar o ar que o petróleo em seus pulmões
não permite encontrar.

Minha lágrima tem a sujeira do nordeste,
não apenas da dor que o rio causou
mas daqueles que por anos
nem sequer sabiam que nordeste havia.

Minha lágrima tem o tamanho das árvores
que caem diariamente em nome da ganância,
da serra que deixa pelado os corações dos homens
e do monte que em breve deixará de ser belo.

Minha lágrima tem a dor da esperança
que insiste em persistir,
como a mãe que acredita no retorno do filho perdido,
da mãe que crê que o bandido poderá ser bom,
de que dias melhores poderão surgir,
de que a humanidade um dia irá mudar.

Minha lágrima tem a dor da fé,
que tenta remover as montanhas da intolerância,
busca vias para encontrar a paz entre os homens
e encontrar uma nova canção para os corações,
que valorize o outro acima de si mesmo,
acima da verdades estampadas em forma de bandeiras.

Minha lágrima tem molhado os lençóis
sem saber se irão acabar,
sem imaginar como será o amanhã,
se tudo continuar do jeito que está,
apenas sei que...

...Minha lágrima tem o tamanho do meu coração,
que tem ficado pequeno dia após dia...

Thiago Azevedo
Belém, 28 de junho de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

João sem nome

João sem nome,
anda desprevinido,
caminhando na rua,
sem rumo,
nem destino.

João sem nome,
não tem guarda-chuva,
nem proteção,
molha-se todo na rua,
agora vai sujo
na contra-mão.

João sem nome,
João sem tudo,
João sem nada,
João do mundo.

Ele não sabe escrever,
Ele não sabe ler,
Ele não saber ser,
esquecido, sem memória,
nem mesmo sabe morrer.

O que vais fazer,
seu João sem nome?
Como vais sobreviver,
sem nem ao menos,
tem sobrenome?

País miserável,
que abriga tantos,
dos Joãos sem nome,
sem sobrenome,
entregues à própria sorte,
sem ter quem lhes olhe.

João ninguém,
João sem nada,
nenhum vintém,
João esquecido,
João sem destino,
João de quem?

Sucumbe mais um João,
quisera ter um bom caminho,
quisera ter tido carinho
quisera ter encontrado o amor,
a única coisa que se destinou,
foi viver a dor de ser sozinho.

Thiago Azevedo
Belém, 20 de abril de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pobre de mim

Estão todos às ruas
Nos becos e calçadas
Deitados às margens
Em sarjetas manchadas
Com o sangue limpo
Da ética ignorada.
Estes gritam clamando
Por socorro e abrigo
Ninguém lhes dá os olhos
Ninguém socorre o aflito.
Que dirás de ti mesmo
Ao contemplar com orgulho
O reflexo do espelho?
Verás um belo ser
Ou muito de longe
O humano
Que deverias ser.
Estão por aí andando
Caindo e morrendo
Sem se sentirem gente
Apenas indigentes
Sem ter para onde ir.
O jeito é esperar
Que a vida finde
Termine seu ciclo
Insuportável e sem fim
O que será dele
Pobre e maltratado?
Pior ainda
O que será de mim
Pobre sem alma
Sem amor
Nem piedade
Cheia de um vazio
Sem fim.

(Thiago Azevedo)
Belém, 14 de janeiro de 2010

sábado, 15 de agosto de 2009

Viva a adesão do Pará!

Vamos paraenses, às ruas.
Beber e festejar,
Nos embriagar com muita cerveja
A tal adesão do Pará.

Temos muito que comemorar! Será?
Viva a adesão do Pará!
De tudo que nos deram
Como esmola pra ficar.

Vamos brindar!
A tudo o que aderimos.

A natureza tão bela
E aos que vêm de fora, extraindo.
Aos minérios tão fartos
E às empresas que desmatam via contrato.

Temos mais justiça
Para libertar o opressor,
Aderimos à corrupção
E também ao corruptor.

Viva a Cabanagem,
E a Eldorado dos Carajás!

Viva a adesão,
No Brasil do Grão-Pará!
Isso é um grande motivo
Pra beber e se embriagar.

Falamos através de uma bela língua,
Que tão pouco sabemos pronunciar,
Os índios são marginalizados,
Aprenderam também a roubar.

Me sinto melhor,
Pois faço parte deste país.

Meu povo é oprimido,
Escravizado e infeliz,
Temos um governo omisso
Que legisla, não em nosso suplício.

Mas para o que paga mais e melhor,
Em detrimento dos que lutam
Todos os dias com sacrifício,
Mas morrem pobres e só.

Quero beber, me embriagar
E esquecer a tal adesão do Pará.

(Thiago Azevedo)

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