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CancaodaFloresta

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dicotomias do mercado

Andando pelas ruas
sem saber chegar
andarilho sem rumo
sem teto, nem lar.

Abrigo do mercado
com vista pro rio
o barco vai ancorar
a vida por um fio.

Sem cama ou conforto
leito é calçada
comida é sem gosto
a vida é fachada
erro de aborto.

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Esperança, não tenho sinhô
só um punhado de farinha
com um resto de peixe sujo
nesta tigela de manteiga

Amanhã, não sei não sinhô
pode ser aqui? Pode não
meu teto é de estrela
a colcha é feito de brisa

bença, não tenho não sinhô.
nenhuma mão pra mim beijá
nenhuma boca para me beijá
nenhuma voz pra me bençoá.

Té manhã, sinhô
sei que não vai voltá
mas pelo menos um trocado
deixe pra eu pode comprá
mais um punhado de farinha
um peixe velho
um pouco de esperança
um pouco mais de estrelas
um pouco mais de brisa
quem sabe uma bençá
que me dê alegria
e me livre pela manhã
desta horrível caristia...

Thiago Azevedo
Marituba, 14 de outubro de 2010

Esse poema foi duro de escrever, queria falar da vida no Ver-o-peso, mas não conseguia visualizar a manhã raiando sobre o mercado, a vida dos pescadores e o rio coroando a bela paisagem do lugar, como a poesia por sua natureza luta contra os desejos do poeta, tornando-se algo além do próprio autor, acabei vislumbrando a noite, sua dicotomia com o movimento diurno, crianças andando, cheirando, com fome, se prostituindo, vivendo como ratos em bueiros, pedindo alento e carinho.

Seus olhos, já sem o brilho da infância e da esperança que deve haver sempre nos corações inocentes. Me vi responsável por isso e me vi entristecido em ter que pintar tão duro quadro, porém, o que se pode fazer quando a alma transpira essa necessidade...

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