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CancaodaFloresta

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Grande Numinoso*

I
Ao que é compreendido
Pela completa incompreensão
Que não cabendo em nenhum lugar
Faz do homem, um lar.

Que não se pode nominar
Tem muitos nomes a se contar
Tudo foi, se quiser, será
Misterioso demais para explicar.

O totalmente incriado
Se deixou criar
De forma insólita
Deformado agora está.

Reflexos numa sala de espelhos
Apenas imagens refletidas
De uma consciência egoísta
Visão turva, incompreensiva.

É a verdade do não saber
Muito amplo, não há como reter
Não tem forma para absolutizar
Nem fôrma a se formalizar.

É livre demais. Clausura!
Liberdade soa ateu. Demais para ser deus!
Escravo dos templos sacros. Usura!
Os discursos prolixos enchem o saco. Perdura!

Religiões sem deus
Criam um para ser seu
Nomes em rótulos de enlatados
Para o deles ser melhor que o teu.

Bramha, Krishna, Buda e Alá
Tupã, Mao, Jesus ou Jeová
Nomes que a mente vai limitar
A compreensão e humanizar.

Incompreendido, Inconcebível
Sem nome que podemos chamar
Salva-nos dessa loucura,
Com teus ventos faz voar.

Para onde a vida começa a brotar
Um amor transcedente
Uma experiência imanente
Viver e religar.

Vamos vivenciar o sagrago
Longe da religião sem deus
Sem semblantes carregados
Livres enfim para unicamente amar.

II
É preciso desligar
O Numinoso desse simulacro
Da fé costurada
Em panos de trapo.

De uma fé barata
Dessa criatura ingrata
Age de forma insensata
Quer só receber e cobrar.

Com orações em palavras comedidas
Exigir bênçãos sem medida
Repetir sempre e sempre tudo
Requerer. Obrigado pra quê?

Fazer do Numinoso
Um mero tira-colo (Exigo!)
Sentado em insolente colo (Reivindico!)
Sempre com a cabeça baixa (Submeter!).

Isso não é fé
Fede, é fé(zes)
Não Nele,
Mas em você.

Isso tudo é uma cilada
Esse deus é inventado
Um truque bobo e barato
Um dia você vai ter que aprender.

Que a fé é graça
Não precisa nada fazer
Muito menos pedir
Nem tão pouco carecer.

O Numinoso é livre de rótulos
Fachadas, igrejas ou invólucros
Está sempre em mim
E pode viver em você.

Basta experimentar viver
Sem os muros dos templos abafados
Com vidas de sabor tão travo
De tantos pecados pra arrepender.

Voe livre desse deus lorde
Fruto de uma rima pobre
Que só vive pela lei em você
Liberte-se! Para não perecer.

Livrem os sábados, os domingos
E todos os dias santos
Livrem o Numinoso das fôrmas, dos trapos de pano
Liberdade para todos serem somente humanos.

(Thiago Azevedo)

*Rudolf Otto, nasceu a 25 de Setembro de 1869 e veio a falecer em 6 de Março de1937. Foi eminente teólogo, protestante alemão e erudito em religiões comparadas. Autor do livro: The Idea of the holy, publicado pela primeira vez em 1917 como Das Heilige (considerado um dos mais importantes tratados teológicos em língua alemã do século XX). Otto é criador do termo numinous, este termo exprime um importante conceito religioso da actualidade.
Na sua obra “O Sagrado”, publicada em 1917, Rudof Otto analisa a realidade apriorista do Numinoso, ou sagrado através dos elementos racionais e irracionais, cujos principais aspectos são descritos nas categorias do Mytetium Tremendum como Tremendum (arrepiante), Majestas (avassalador), Mysterium (o totalmente outro). O Numinoso é “fascinante” e “assombroso” a um só tempo.
A tese central do autor é a ideia do sagrado compreendido como algo divino. clique aqui para saber mais

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