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CancaodaFloresta

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Soneto do tempo

o tempo preso na parede,
lento, dança sem correr,
sonhos de menina moça,
olha no quintal, chover.

anseios de menina mulher,
alento, abrigo, carinho,
rosa da aurora acontecer,
pétala, perfume, espinho.

o inverno raia com o poente,
finda silente mais uma canção,
dorme o vento e a semente,

na poesia de uma humilde oração,
"Pai nosso, quero poder fazer
da vida mais que mera intenção..."

Thiago Azevedo
Marituba, 17 de outubro de 2011

Passageiro

flor de vento....
Passa o dia
e o raiar poente,
passa a primavera
da temporã semente,
também a infância,
junto a idade da gente.
Passa o homem
e a menina mulher,
passa a pressa,
passa e não fica,
passa o padre,
o pastor e o bispo,
passam e não ouvem,
o clamor e o suplício.
Passa o vereador,
o prefeito e o governador,
passam sem ver,
fingem passar e esquecer.
Tudo vem e passa,
passa o vento,
passa a chuva,
passa lento,
a dor e o tormento,
passa o luto e a luta,
passa a esperança,
passa a fé,
passa o fardo,
que pesa e cansa,
passa o amor
e a serena flor,
que o vento balança,
passa tudo,
fica nada,
até quem sofre,
passa na vida,
que surge perene
e infinita definha...

Thiago Azevedo
Belém, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Dicotomias do mercado

Andando pelas ruas
sem saber chegar
andarilho sem rumo
sem teto, nem lar.

Abrigo do mercado
com vista pro rio
o barco vai ancorar
a vida por um fio.

Sem cama ou conforto
leito é calçada
comida é sem gosto
a vida é fachada
erro de aborto.

---------------------------

Esperança, não tenho sinhô
só um punhado de farinha
com um resto de peixe sujo
nesta tigela de manteiga

Amanhã, não sei não sinhô
pode ser aqui? Pode não
meu teto é de estrela
a colcha é feito de brisa

bença, não tenho não sinhô.
nenhuma mão pra mim beijá
nenhuma boca para me beijá
nenhuma voz pra me bençoá.

Té manhã, sinhô
sei que não vai voltá
mas pelo menos um trocado
deixe pra eu pode comprá
mais um punhado de farinha
um peixe velho
um pouco de esperança
um pouco mais de estrelas
um pouco mais de brisa
quem sabe uma bençá
que me dê alegria
e me livre pela manhã
desta horrível caristia...

Thiago Azevedo
Marituba, 14 de outubro de 2010

Esse poema foi duro de escrever, queria falar da vida no Ver-o-peso, mas não conseguia visualizar a manhã raiando sobre o mercado, a vida dos pescadores e o rio coroando a bela paisagem do lugar, como a poesia por sua natureza luta contra os desejos do poeta, tornando-se algo além do próprio autor, acabei vislumbrando a noite, sua dicotomia com o movimento diurno, crianças andando, cheirando, com fome, se prostituindo, vivendo como ratos em bueiros, pedindo alento e carinho.

Seus olhos, já sem o brilho da infância e da esperança que deve haver sempre nos corações inocentes. Me vi responsável por isso e me vi entristecido em ter que pintar tão duro quadro, porém, o que se pode fazer quando a alma transpira essa necessidade...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Palhaço

Cara branca
nariz vermelho
sorriso estampado
que nunca muda
nem se acaba
eternizado
no rosto do palhaço
prisioneiro da alegria
escravo do riso
nele não há lágrima
amaldiçoado a ser apenas sorriso
sacrificando seus sentimentos
esquecendo dia após dia quem é
sendo apenas palhaço
escondido dentro da maquiagem
por trás de um nome falso
e de uma vida sem sobrenome
quer ser triste
quer poder chorar
quer poder sofrer
quer poder lastimar
mas és palhaço
para sempre
nunca mais outra coisa
coisa triste é ser palhaço...

Thiago Azevedo
Marituba, 11 de outubro de 2011

O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria. Eclesiastes 7:4

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Reflexo do mundo

Ser reflexo do seu mundo,
é a forma que o poeta tem
para expressar sua palavra.
Que mundo tenho hoje?
que tempo tenho agora?
Antes contemplava o verde
da tão intensa floresta,
os imensos jardins
com seu colorido perfumado.
Agora me contento
com uma folha voando pelo ar,
uma flor que cresce
resistente no asfalto,
a fumaça que embaça o sol
como turvo pôr-do-sol
e este perfume exalado
pelas lojas de vidro
simulando a última flor
envolvida no laço,
que laça a alma perdida
em tempo que não é mais.

Ser reflexo do mundo,
que mundo?
que tempo?
que vida?
e agora?

Poesia,
um reflexo
de um mundo sem nexo...

Thiago Azevedo
Marituba, 07 de outubro de 2011

Estudando um pouco sobre poesia, cada poeta tem uma relação intrísica com seu tempo, seu mundo e momento. Isso me assaltou um tempo, parei e fiquei meditando sobre que tipo de poeta, ou projeto de poeta sou? Que tempo e mundo eu tenho para falar? Me vi aflito, por ao certo não saber, por estar mergulhado numa rede de dúvidas ao olhar para a história do presente e ver um mundo definhando dentro de si mesmo.

Numa palestra que o professor Manoel Moraes fez, percebi que as pessoas não sabem mais o que fazer da própria vida, parece que todos perderam o nexo. 

Como diz o Chico, assim como os cegos, os poetas podem ver na escuridão, ou pelo menos ver a escuridão em que estão todos, porque muitos ainda nem se imaginam estar envolvidos nesta imensa crosta densa que cega os olhos e os sentidos, esse tempo se assemelha ao que diz o poeta que escreveu:
"O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz." Bíblia Sagrada

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