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CancaodaFloresta

segunda-feira, 7 de março de 2011

Rainha do rio

Se todas as lendas do mundo
pudessem contar nossa história,
tu serias meu rio
que rega minha carestia
e inundas minha ansiedade,
sustentas dando vida nova,
faz-me navegar nas profundezas de tuas águas,
a desaguar noutras águas,
deste teu calmo rio
que se faz bravio mar.
seduzes-me pelo dançar de tua maresia,
tua intensidade faz naufragar minhas certezas
e este meu sentimento de controle.
Sou apenas um barquinho
que se perde neste imenso horizonte de teu amor.
Se eu fosse escrever nossa lenda de amor,
teu rio teria por nome Rosa,
rainha das flores e do mar,
o meu, seria esperança,
de viver todos os dias em teu leito
e pra terra firme nunca mais voltar.

Thiago Azevedo
Belém, 07 de março de 2011

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Transgressão

A poesia é transgressora
dos sentimentos que se procura esconder,
o que está oculto, os versos trazem à tona,
como a nascente revelada pelo furor da cachoeira,
ou da palavra que quer permanecer em silêncio,
entretanto a poesia,
encontra a língua que abusa de metáforas
e ousa viver à mercê de seus neologismos.
Para viver a poesia,
é preciso transgredir-se,
deixar-se vulnerável em palavras que fortalecem,
é viver paradoxos,
incompreender o que é compreensível,
ver no banal, o essencial,
é não ter controle de si mesmo.

No fim, a poesia te fará um ser humano melhor,
não por ser perfeito,
pelo contrário,
mas por mergulhar na imperfeição
e ver-se inteiramente fragilizado,
inteiramente sentido por si mesmo
e finalmente,
inteiramente humano...

Thiago Azevedo
Belém, 26 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Moldura...

Minhas palavras deram uma pausa
necessária para me readaptar
à parede de minha nova moldura.
neste meu novo retrato,
há uma imagem meio turva,
não é branco e preto,
não é colorida e nem sépia,
não é nova ou velha,
que fotografia esconde esta moldura?
Que palavras serão ditas
após minha vista se acostumar
com o que vê no novo retrato?
Enquanto isso,
o silêncio que atordoa meus versos,
são de uma necessária ausência,
de mim mesmo em mim mesmo,
para compreender esta imagem
que se molda em minha parede.
O dia se deita no oeste,
a música silencia em seu último acorde,
o silêncio se finda ao voltarem às palavras
e a poesia se resignifica,
tal como se faz com as fotografias
e as molduras de parede...

Thiago Azevedo
Belém, 18 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Rascunho

Minha poesia é um eterno rascunho
em busca de finalizar a si mesma
quando o sol se põe a oeste do monte.

Meu lápis é o profeta de meus versos
em caligrafia mal enquadrada
de um amor que não compreendeu.

As pautas que guiam meu horizonte
fazem-me perder no infinito
olhar e coração navegarem distantes.

Minha poesia é uma linha rabiscada
história em forma de rascunho
cruza a vida para reinventar o mundo.

Thiago Azevedo
Belém, 12 de fevereiro de 2011

O rascunho é a busca perpétua pelo crescimento, melhoria, evolução e para tal, assim como a borboleta que sucede a larva. A vida reinventa o mundo e reflete a poesia que se rascunha numa linha infinita do horizonte, refletindo a eternização através do sentimento que se reflete em forma de palavras, ora desconexas, ora ligadas e compreensíveis.


No fim, todo poeta é um modelo de rascunho que não se preocupa em terminar, entretanto, apenas viver mais uma nova experiência em forma de verso.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Projeto Canção do Rio - Águas de Março

Queridos amigos, respondendo a um grande desafio do momento, Gladir Cabral, Fabrício Matheus, José Barbosa Júnior e eu estamos envolvidos num projeto de criar uma série de sambas de lamento. A idéia é desabafar junto com o povo e buscar consolação, solidariedade, alguma esperança possível diante da forte correnteza do desânimo e do abatimento geral.

Aqui está nossa segunda canção: “Águas de março”, clara citação à canção de Tom Jobim, feita em sua casa em São José do Vale do Rio Preto, infelizmente destruída pelas últimas chuvas.



Águas de março

Águas de março, tão fora do tempo,
Tão antes de a gente esperar
Tomam espaços, navegam no vento
E fazem o povo chorar
Rios de dores carregam as flores
E os nossos amores pro mar
Quem é que dá a palavra de ordem
E que faz toda água voltar?

É pau, é pedra, é toco
É fim de mundo, é ribanceira
É samba que perdeu o tom [tudo]
É campo sem peroba
É matita sem pereira
É verso que não fica bom

Águas de março, tão fora do tempo
Que até Deus se fez lagrimar
Velha mangueira ficou em silêncio
Pra longe se foi sabiá
Falta de teto, de chão e abrigo
O sol escondido do olhar
Rio de pranto, uma chuva de prata
O céu desatou a chorar

Águas de março, tão fora do tempo
Que fazem o leito jorrar.
Boa lareira que fez-se poeira
E trouxe mais cinza ao luar.
Sonho contido, retrato perdido
Daquilo que um dia foi lar.
Lado de dentro jogado na rua
E a rua perdida a chorar.

Rio quer tanto, uma nuvem de graça
Que faça essa gente cantar.

Gladir Cabral, Thiago Azevedo e Fabrício Matheus

Fonte: www.gladircabral.com.br

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