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CancaodaFloresta

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Calendário

Diante do calendário,
o observar dos meses e dias,
pouco importando o ano
quando se vai longe,
bem longe,
anos atrás.
Numa rua de piçarra,
as verdes vias,
repletas de rios e igarapés,
uma Belém de nostalgia,
uma Belém que não é mais,
das brincadeiras de bola,
divertimento com petecas,
cai uma na vala,
pega com a mão
e limpa na roupa suja,
pés no chão,
sem preocupar com pedrinhas,
sem preocupar com a lama,
apenas o sentir o chão,
o correr sem direção,
o voar raso,
pés no chão,
chuva serena da tarde cinza,
garoa da poesia
em pingos de versos.
As noites aos bandos,
juntam-se nas ruas,
para mais brincadeiras
pira-se-esconde,
polícia e ladrão,
pira maromba,
pira garrafa,
outras que nem lembro não,
conversas de calçada,
anúncio do fim da piçarra,
papos sem sentido,
entre causos e gritos,
o vizinho grita e xinga
querendo ver o jornal,
querendo ouvir a notícia,
molecada boba,
encontram as primeiras meninas,
os primeiros amores,
os primeiros beijos,
juras falsas de amor,
os primeiros dissabores.
E continuam as brincadeiras,
as antigas cantigas,
os mesmos moleques,
as mesmas broncas de mãe,
como fantasmas que ecoam
no folhear do calendário,
olha a data e vês
que está no dia errado,
hora de voltar para o relógio,
girá-lo em sentido horário
E deixar que os novos moleques
das ruas novas de piçarras,
tenham suas próprias lembranças também.

Thiago Azevedo
Belém, 20 de setembro de 2010

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